O
carnaval passou, mas a ressaca ética que ele nos deixa é profunda.
Recentemente,
em entrevista à revista Veja, o presidente da Liesa, Gabriel David – herdeiro de
uma estrutura de poder que o Brasil conhece bem, disparou uma frase que é
retrato do nosso atraso: “Talvez não tenha nenhuma mulher tão relevante
midiaticamente nesse momento no Brasil como a Virgínia”.
A
declaração não é apenas um equívoco de avaliação; é um sintoma de uma mídia que
escolheu o que deve ser considerado “relevante”. Ao estampar a influenciadora
como símbolo máximo de importância, os grandes veículos não estão apenas
reportando a realidade, estão construindo uma hierarquia de valores onde o
lucro do jogo de azar e o engajamento vazio valem mais do que a transformação social.
É
a “mão oculta” do mercado editorial que decide quem merece o refletor. Enquanto
as capas de revista se ocupam de quem vende cosméticos ou promove plataformas
de apostas, ocorre um silenciamento sistemático e deliberado das mulheres que
realmente sustentam o progresso do país.
O
caso de Tatiana Sampaio, cientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), é o exemplo mais gritante desse apagamento. Há quase três décadas,
Tatiana dedica sua vida à pesquisa de uma proteína capaz de regenerar ligações neuronais,
um avanço que pode devolver movimentos a pessoas tetraplégicas. Onde estão as
manchetes para Tatiana? Onde está o “espaço generoso” para quem desenvolve ciência
de ponta em uma universidade pública?
Como
a própria pesquisadora afirmou, o incômodo surge quando a mulher ocupa um
espaço que a estrutura patriarcal e midiática diz não ser dela. A mídia prefere
o “bobo da corte” ou o “rosto belo” porque eles não questionam, não libertam e não
inspiram a autonomia intelectual. Mulheres independentes, donas de seus
destinos e mentes brilhantes, são perigosas para o status quo.
Dizer
que uma influenciadora é a mulher “mais relevante” do Brasil é uma tentativa de
apagar a contribuição feminina nas artes, na política, na literatura e,
sobretudo, na ciência. É um rebaixamento coletivo. Precisamos romper com essa
curadoria do supérfluo e exigir que o jornalismo brasileiro volte a iluminar
quem, de fato, trabalha para que este país caminhe para frente. Relevante é a
vacina, é a descoberta, é a democracia. O resto é apenas barulho para gerar
clique.
Nil Jr.

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