Alguns
parlamentares têm transformado “diárias” em bônus mensal
Câmara
pagou até agora, R$ 43,3 mil a parlamentares que já recebem salário fixo,
maioria das viagens a São Luís cai justamente na véspera do fim de semana, e um
vereador sozinho já embolsou R$ 12,7 mil em dez idas e vindas.
Existe
uma frase que resume bem a política municipal brasileira, todo mundo só “recebe
o que tem direito”. E em Bacabal, aparentemente, o direito é ilimitado.
Um
levantamento feito pelo Blog do Vanilson
Rabelo, junto aos registros de pagamentos da Câmara Municipal mostra que, entre
janeiro e agosto de 2026, vereadores da Casa embolsaram R$ 45.300,00 em diárias,
dinheiro público, vale lembrar, que se soma ao subsídio mensal que eles já recebem
religiosamente, chova ou faça sol, tenha ou não sessão. Diária, para quem não sabe,
é aquela verba que deveria cobrir uma viagem extraordinária. Em Bacabal, ao que parece, virou
salário paralelo com nome fantasia.
Se
houvesse um troféu para o vereador mais viajado, ele já estaria com Reginaldo
Castro de Araújo, o “Reginaldo do Posto”. Dez diárias em oito meses, mais de
uma viagem paga por mês, com uma pontualidade que muitos projetos de lei de
interesse da população jamais tiveram. R$ 12.700,00 de saldo. Na cola, José
Alberto Veloso Sobrinho (R$ 9.200,00), Raimundo Cleudo Braga Feitosa e Fernando
Siqueira Sousa (R$ 7.100,00 cada), Alex Abreu Almeida (R$ 6.400,00) e Manoel
Serafim Reis (2.800,00). Um pequeno grupo, uma grande vocação para o asfalto.
A
maior parte dos pagamentos, 50 dos 75 registros analisados, são diárias avulsas
de R$ 700,00. E aqui a coisa fica curiosa, segundo consta, esse dinheiro
bancaria viagens a São Luís “para tratar de assuntos de interesse desta Casa
Legislativa”. Uma frase tão vaga que serviria para justificar praticamente
qualquer coisa, de uma audiência na Assembleia a um almoço bem regado na
capital.
E
tem mais, 60% dessas diárias caem em quartas e sextas-feiras, com destaque
especial para as sextas, exatamente o dia que abre o fim de semana. Que coincidência
mais produtiva. O “interesse da Casa”, ao que parece, tem um instinto quase infalível
para se manifestar sempre às vésperas do descanso.
E
se você acha que R$ 700,00 por viagem já é confortável, aguarde o capítulo mais
generoso desta história. No dia 27 de abril, doze beneficiários, receberam cada
um, R$ 5.000,00 de uma só vez, (o 13º
pagamento de R$ 5.000,00 para Jairo de Lira Rodrigues, caiu no dia seguinte,
28/4). Só naquele dia, a Câmara torrou R$ 60 mil em diárias, mais da metade
de tudo que foi gasto com a rubrica no ano inteiro.
O
motivo oficial foi a XXV Marcha dos Gestores e Legislativos Municipais, evento
nacional promovido pela União dos Vereadores do Brasil, em Brasília, que
aconteceu de 27 a 30 de abril. Legítimo, sem dúvida, capacitação existe e faz
parte do ofício. O problema é a matemática, quatro dias de palestras renderam a
cada participante mais de seis vezes o valor de uma viagem comum a São Luís. Quem
dera todo curso de capacitação pagasse assim.
Convém
lembrar, vereador no Brasil não trabalha de graça. Recebe subsídio mensal fixo,
definido em lei, proporcional ao tamanho do município, e em cidades do porte de
Bacabal, isso já significa um salário bem acima da média da população que os
elegeu, na casa dos R$ 6.000,00 em diante. A diária deveria ser exceção, não sobremesa. Mas quando o “assunto de
interesse da Casa” vira rotina de sexta-feira e um único mandato consegue dez
viagens no mesmo ano, fica difícil engolir a explicação de que é tudo trabalho.
Não
é ilegal, ao menos não pelo que se sabe até aqui. Mas ilegal e decente
raramente são a mesma coisa. E enquanto a Câmara de Bacabal não abrir a real
pauta de cada uma dessas viagens, com quem se reuniu, o que efetivamente
resolveu, a única certeza que resta ao contribuinte é essa, por aqui, o fim de
semana começa na quinta, e quem paga a conta é sempre o mesmo de sempre.


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